30 de novembro de 2021

Sob regime comunista, Cuba enfrenta os maiores protestos de sua história por causa da escassez, da falta de liberdade e do recorde de casos de Covid-19

Cuba tem manifestações por ‘liberdade’ em diferentes localidades. Foto: Yamil Lage/AFP

As marchas populares começaram no começo desta semana, no domingo, no município de San Antonio de los Baños e, segundo a BBC, espalharam-se por mais de 20 localidades. Vídeos e fotos demonstram repressão policial, mas o governo não divulgou números oficiais de feridos e detidos. Ativistas críticos ao governo cubano reportam, pelo menos, 160 desaparecidos e presos nestas manifestações.

Neste quarto dia consecutivo de protestos contra a ditadura foi marcado por mais desaparecidos, repressão, recrutamento forçado, invasão de casas e corte da internet. Cuba teve nesta quarta-feira, 14, manifestações nas cidades de Pinar del Rio, Havana e Santiago de Cuba. Demonstrações nos municípios de Camaguey e Cárdenas foram impedidas pela polícia, que recrudesceu a repressão. Entidades de direitos humanos calculam o número de desaparecidos chegando a 187. A ditadura já admitiu a morte de um manifestante, em um bairro pobre de Havana.

Apesar do bloqueio de internet, aos poucos alguns cubanos têm conseguido acesso limitado e enviado informações sobre o que está acontecendo. Uma das notícias é que policiais estão entrando nas casas das pessoas para fazer recrutamento forçado de jovens com mais de 17 anos. Eles recebem pedaços de pau e são orientados sobre como reprimir manifestações (foto). Em um vídeo divulgado nas redes sociais, é possível ver esses adolescentes sendo conduzidos de um lugar para o outro.

Foto do recrutamento forçado: o Antagonista

Policiais também estão invadindo a casa de cubanos durante a noite, buscando pessoas que participaram das manifestações.

Um vídeo publicado na internet mostra o momento em que agentes uniformizados entram na casa de Joel Daniel Cárdenas Díaz, na cidade de Cárdenas. Assim que invadem a casa, os policiais atiram contra Díaz, na frente de sua mulher e filha. Depois de cair no chão, ele sofreu golpes e foi levado em uma viatura. As informações são de que o Díaz ainda está vivo, mas familiares não puderam visitá-lo ou vê-lo após sua captura. Ele é acusado de ter participado de manifestações na cidade de Matanzas, mas sua esposa nega que ele esteve por lá.

Nesta quarta, 14, Brigadas de Resposta Rápida foram colocadas de prontidão nas sedes do Partido Comunista Cubano e nos Comitês de Defesa da Revoução, os CDRs. Essas brigadas, compostas por policiais à paisana, agem assim que alguém inicia uma manifestação . Em geral, elas detêm as pessoas e as levam para delegacias em carros com ou sem placa oficial.

Três grandes problemas

O pano de fundo é um preocupante cenário econômico. O PIB caiu em 2020 estimados 8,5%. O déficit fiscal do Estado corresponde a 9% do PIB, segundo informe da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a Cepal. Num país de 11,3 milhões de habitantes, a taxa de desemprego fechou o ano passado em 3,87%.

O auxílio emergencial da pandemia pelo governo aos desempregados não é suficiente para o acesso à comida. De acordo com a plataforma Connectas, o país já vinha com escassez de remédios e de alimentos – estes devido à baixa produtividade agrícola da ilha, com suas condições precárias, além de seu tamanho, o que dificulta obtenção de itens como carne, leite e hortaliças. Cuba importa 70% dos alimentos que consome e paga por eles cerca de 2 bilhões de dólares anuais. A ONU descreve um menu pobre em nutrientes e pouco saudável e variado. Segundo um relatório da organização, 70% das crianças cubanas entre seis e 11 anos vive em insegurança alimentar. Entre os idosos, a taxa é de 15%. Há, ainda, prevalência de casos de anemia na população.

A crise também atinge o fornecimento de energia elétrica, com reincidência de apagões. Ministros admitem falta de manutenção nos equipamentos e problemas de abastecimento de combustível, mas apontam dificuldades. Cuba teria consumido cerca de 207 mil toneladas de diesel no 1º semestre deste ano: bem mais que as 70 mil toneladas do combustível que teve disponível nos meses recentes. A solução é importar. Mas, segundo o governo, um barco com apenas 3 mil toneladas de diesel custa cerca de 25 milhões de dólares.

Outro fator de tensão é o agravamento da pandemia. Na segunda feira 12, Cuba atingiu recorde de casos Covid-19, com 6.423 casos e 42 mortes, chegando a quase 245 mil contágios e 1,6 mil falecimentos. A ameaça de uma nova onda pela variante Delta, já detectada na ilha, aflige o povo. Os gastos com medidas sanitárias têm sido vultuosos e prejudicado as fontes de receita, como o turismo.

Com forte dependência do turismo internacional, o país sofreu seguidos revezes devido às restrições internacionais de viagens.

Parte da população tem mostrado também descontentamento com o governo do presidente Miguel Díaz-Canel. Sucessor dos irmãos Raul (2008-2018) e Fidel (1976-2008) Castro, Díaz-Canel é visto como um mau gestor por uma significativa parcela do povo cubano, entendimento que piorou na crise gerada pela pandemia.

Sob governo do Partido Comunista desde 1959, Cuba é um local que polariza opiniões: enquanto à direita do espectro político considera-se o regime socialista como principal culpado pelos problemas da ilha, vozes de esquerda pontuam o embargo econômico imposto ao país pelos Estados Unidos como causa das dificuldades. Mas agora ambos os polos estão do lado do povo nestes manifestos contra a tirania, a fome,

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